
Espero ser enfático:
Em mim ninguém vai mandar!
Ó terras geladas do Ártico!
Isso é que é vida! Mal posso esperar!
O local indicado por Calvin para sua plena libertação dos desmandos do mundo pode ser adaptado para qualquer canto do nosso país tropical, mas a essência continua a mesma: na infância, mais até que na caótica adolescência, teimamos em ampliar as áreas ao nosso redor como se fossem outros mundos a desbravar. Hoje, já adulto (?), me recordo que lugares imensos da minha infância em São Paulo, que eu demorava a cruzar, podem ser explorados com poucos passos.
A Estação da Luz é o maior exemplo para mim. Quando criança, algumas vezes, meu pai ia de carro pegar meu avô que trabalhava como jornaleiro na clássica banca de revistas do Lazarinni. Eu ia junto. Ao parar em frente da estação, eu descia do carro e avistava a banca, bem longe, e corria a passos largos ao encontro do meu nôno e do seu universo de gibis. Há poucos anos, desde que vim para Brasília, comecei a vasculhar meu baú de lembranças e me dei conta: foi meu nôno quem me apresentou a cultura pop dos quadrinhos. Todas as noites eu esperava ansioso ele chegar com as revistinhas. No começo, quando eu não lia nada, aos 5 anos, os gibis eram folheados em minutos e eu dizia “Acabei”, para ter como resposta somente um sorriso maroto do meu avô em seu jantar tardio. Com o passar dos anos e a alfabetização, demorava para entrega-los.
Funcionava assim. Ele trazia os gibis e quando terminado, ele os levava de volta para a banca, para o tal recolhe, quando as editoras buscavam os exemplares não vendidos. E foi assim por muito tempo, até sua aposentadoria. Pelas mãos do meu avô tive contato com Marvel, Disney, Mauricio de Souza e muitos outro na infância. Na adolescência, ele trazia os clássicos do Angeli, do Glauco, Laerte, tudo que saia na editora Circus, mais O Planeta Diário, Casseta Popular e enfim, uma eternidade de revistas e quadrinhos que hoje fazem parte da minha vida.
Comecei este post para falar da obra de Bill Waterson, o genial cartunista americano criador de Calvin and Hobbes, no Brasil traduzido como Haroldo. O nome Calvin foi inspirado no téologo protestante que questionou a teologia cristã. Hobbes, o tigre, foi batizado em homenagem ao filósofo Thomas Hobbes.
Publicada de 18 de novembro de 1985 até 31 de dezembro de 1995, as tiras de Calvin questionam a ordem vigente, exaltando o livre pensamento e instigando nós, adultos, a todos os dias avaliarmos nossas ações, que, invariavelmente nos traem. A máquina burocrática nos consome diariamente e Bill Watterson lembra sempre que pequenas ações podem ser subversivas ao ponto de mudarem relações e afetarem ambientes. Talvez seja a micropolítica de Guatari.
Praticamente não existe licenciamento de produtos para merchandising de Calvin and Hobbes. Watterson é contra isso e não permitiu sequer que sua obra fosse adaptada para TV e cinema, preservando sua essência das tiras. Alás, é preciso lembrar: Watterson criou Calvin durante sua passagem como ilustrador em trabalhos terríveis e tediosos em publicidade. Como conhece a linguiça, sabe que não poderia reproduzi-la com sua obra.
Em meados de 2000, visitei novamente a Estação da Luz, depois de muito tempo. Refiz o caminho para a banca de jornal. Ela não está mais lá. Mas no chão, estava a marca perfeita do aço no piso, demarcando o lugar onde por tantos e tantos anos, desde a década de 60 talvez, a banca esteve fincada. Peguem suas coisas! Vamos para Yukon!
Abaixo, em foto de Tereza Maria encontrada no Picasa, quase o local exato: a banca ficava ao lado esquerdo da escada, para onde ruma o casal de namorados.
