A mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo

22/07/2008

Para os fãs de cinema e comédia, categorias em que me encaixo com vigor, a perda de Dercy Gonçalves abre um pequeno hiato na imortalidade da comédia.

É evidente que ligar os pontos de um texto do Woody Allen, interpretar a metalinguagem dos Phyton e imaginar os sons de Chaplin são engrandecedores e nos levam ao raciocínio mais crítico da nossa presença diante das pessoas, como legítimos seres patéticos. Nunca esqueço de um professor de História do colegial que dizia: “O ser humano é tão estúpido que ri das necessidades naturais dos outros, como soltar um flato”.

Comediantes populares como Dercy, Oscarito, Zé Trindade, Grande Otelo, Golias e outros tantos de igual talento zombavam da precariedade de compreensão dos intelectuais para os fatos sociais comuns. É como se eles possuissem um canal direto com o povão, uma linha exclusiva de comunicação, num código comum que criava admiração e cumplicidade. Não importa compreensão política, basta subverter o sofrimento para falar de igual para igual.

Ao contrário do que dizem os intelectuais de caserna, Dercy não fazia rir pelos palavrões de fácil compreensão para a baixa renda. Como comediante, ela era o espelho dos trejeitos da população, que se sentia muito bem representada por ela.

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