
Para Alexandre Martins*
Um cinema repleto, em silêncio mortal.
Em Brasília, as pessoas costumam falar durante as exibições como se estivessem em casa, mas em uma das sessões de estréia de Dark Night, o Cavaleiro das Trevas, com sala cheia, em diversos momentos ouvia-se até a respiração do público.
O mérito disto é de Heath Ledger na pele do Coringa, o principal vilão de Batman em toda a obra de Bob Kane.
A graphic novel O Cavaleiro das Trevas, escrita e desenhada por Frank Miller em 1987, tratou de recompor o Coringa em sua essência, como um psicopata e um ser ligado umbilicalmente a Batman: um não vive sem o outro. O Coringa, na sua psique, é uma extensão do herói descontrolado.
Heath Ledger criou definitivamante o Coringa para o cinema, jogando por terra a atuação de Jack Nicholson no filme de 1989 dirigido por Tim Burton. Era essa a interpretação que todos sonharam em ver no cinema.
O erro de Nicholson, e talvez de Tim Burton, foi o de não ter interpretado o palhaço como Jack Torrance, o maníaco de O Iluminado de Stanley Kubrick baseado na obra de Stephen King. Pois Heath Ledger o fez. É possível ver os traços de Nicholson e sua psicopatia no Coringa de Ledger, e talvez esta tenha sido sua piada mortal em protesto as reclamações de Jack por não ter sido escalado para o papel novamente.
O público espera as aparições de Ledger durante todo o filme, e quando ele não está em cena, é como se o roteiro do filme não andasse, tamanha a sua esquizofrenia no papel. Suas aparições geram tensão a todo instante, pela maneira imprevisível como se comporta em cena.
Ledger incorporou trejeitos revoltantes ao personagem. A língua constante que passeia pelos seus lábios, com pequenas chupadas de saliva no canto da boca, irritam profundamente, como uma tortura, desencadeando asco e atração pela personagem. É impossível retirar os olhos dele, mesmo quando contracena com atores de peso como Gary Oldman.
É uma maldição. Heath Ledger deu vida ao Coringa e ao mesmo tempo sepultou qualquer possibilidade de outro ator interpreta-lo no futuro. Receio que a DC e o diretor Cristopher Nolan não tenham mais opções daqui pra frente, a não ser escalar outros vilões realistas para o confronto com Batman. Abaixo, mais cenas de Ledger.

* In Memoriam