Arquivo para Julho 15th, 2008

Wall E

15/07/2008

Me perguntei desde o princípio da sessão de Wall E: Para onde a animação irá a partir de agora? Será que existe um limite para a perfeição?

O limite é olhar para o passado e observar que a animação digital fez uma curva para resgatar a perfeição do quadro a quadro analógico, detalhado, criado por mestres como Tex Avery, Chuck Jones e até… Walt Disney.

O curta Presto, já tradicional nas aberturas de filmes da Pixar, revelou o que viria a seguir ao homenagear a animação Magical Maestro, de Tex Avery, produção de 1952 da Metro.

A animação moderna, apesar de usar recursos tecnológicos em 3D, cortou os fotogramas para redução de custos, num movimento que começou na década de 60 com os desenhos da Marvel, que acabaram criando um estilo único com o uso de onomatopéias. O que seria arte para a Marvel, acabou se transformando em um recurso econômico para outras produtoras, muitas vezes porco para animações, entre a década de 80 e 90.

Ainda com Wall E encravado na mente, com seus cenários aéreos de destruição provocados pela incapacidade humana de preservação, pensei imediatamente nos textos de ficção de Philip K. Dick, autor de Minority Report. A Pixar construiu um mundo quase plausível para daqui a 700 anos, com montanhas de entulho e lixo que são escavadas por um único ser mecanizado. Os lixões pelo Brasil afora antecipam este futuro, com adultos e crianças vivendo do que resta de plástico e papel devido ao pensamento positivo da classe média brasileira, que ao invés de dividir a renda, prefere ser politicamente correta ao separar papel e plástico dos orgânicos e, como ouvi um dia, para facilitar a vida de quem os revirará.

Voltando ao Philip, ao contrário do que mostrou Spielberg, seus textos eram sobre um futuro possível, com tecnologia, mas sem os exageros de interfaces gráficas e máquinas voadoras, e sim o ponto de vista do homem afetado economicamente pela tecnologia latente. Dick era um escritor assalariado, com ganhos pequenos, que muitas vezes viveu com dificuldade como um homem simples.

A Pixar criou um clássico, com menos exageros cômicos para suas personagens, e mais provocante socialmente. O local de reconstrução dos robôs com defeito na grande nave é simplesmente um hospício, simbólico para a ficção, para onde as autoridades modernas sempre levaram os revolucionários que contestam a ideologia dominante. Hoje, num mundo democrático, é a imprensa que faz esse papel, desqualificando quem ousa questionar seu poder e seus anunciantes.

Libertos, os “loucos” do laboratório desconstroem a ordem, derrubando a estética da beleza, das diretrizes sociais e do pensamento único da publicidade.

Wall E procura o simples toque tímido de mãos, daqueles que sentimos vontade de ter com pessoas que despertam uma paixão assustadora de veneração e dedicação.