Logo que cheguei em Brasília, no fim de 2003, tive contato com os primeiros passos da tese de doutorado de Ana Queiroz sobre as relações entre Brasília e a Tropicália. O resultado de todo esse imenso trabalho pode ser visto agora, no novo Museu da República, a partir desta terça-feira, dia 15/07, até o dia 30/08.
A curadora Ana Queiroz, que integrou as linhas avançadas do Oscar aos timbres e acordes dos Mutantes, Gil e Caetano, é atriz e doutora em História da Arte pela Universidade Complutense de Madrid. Até hoje ecoa na mente dela a perfeita imitação que fiz de um Dragão de Komodo em uma mesa de bar. Não insistam! Não existirá outra performance. Abaixo, apresentação em texto da própria autora.
A exposição A Utopia da Modernidade: de Brasília à Tropicália traça um percurso emblemático da arte do nosso país. Ainda que neste momento expresse apenas um recorte do seu projeto inicial devendo ser ampliada à representação de artistas para a itinerância, a mostra interpreta Brasília como a urbe protagonista de um novo tempo e insere a cidade no contexto das utopias, convidando cada visitante a pensar a história da busca do lugar para ser feliz.
Nela se revela o mesmo desejo atávico e imemorial que acompanha os homens desde sempre e que até hoje forja sonhos e desencadeia migrações e diásporas. Há quase 50 anos, Brasília nasceu de um conceito de cidade ideal, a Cidade Moderna tecendo em sua gênese o arquétipo da terra prometida. No mapeamento da sua construção, razão, utopia e mito se entrecruzam e é nessa conjuntura que desenvolvemos a nossa reflexão: cidade, arte e cultura são parte de um só contexto.
Desde o seu primeiro traço a capital reconfigura e expõe as amálgamas dos nossos Brasis. Inventiva, se reinventa. Recria-se a cada instante, terra brasílica. A urbe traduz e decifra duas estéticas que ilustradas na sua Arquitetura e recriadas nos seus vãos, parecem dissimilares, mas comungam o mesmo espaço. A nossa exposição lança esse olhar e propõe a reflexão: a estética racional, ordenada, concreta versus a estética da mescla, irônica e dessacralizadora instaurada nos procedimentos multifacéticos da Tropicália.
Ambientações, vídeos-instalação, recortes cenográficos, releituras de alta temperatura inventiva conversam com o visitante propondo o diálogo e a interação. ENTRE é um convite e a palavra chave: entrequadras, entre décadas, entre tantos mundos. Na pequena sala arquitetada pelos designers da exposição, obras originais elaboram referências temáticas sobre a Capital e dialogam com as projeções de distintas cidades. O cenário do Eixo Monumental é apropriado na composição do projeto museográfico elaborando uma nova geografia na esplanada dos Ministérios.
A Tropicalização criativa do grupo N.O.I.S. inspirou-se numa tese de doutorado e, neste caso, a mostra transforma-se em projeto coletivo, em tese viva para ser refletida, questionada e, especialmente, vivenciada.

